quinta-feira, setembro 10

Perguntas

- Está tudo bem?

E tudo começa assim.
A tua pele sofre um arrepio que só tu percebes e começa a queimar. Sentes o teu corpo ser cortado pelo vento que corre como se fossem os vidros despedaçados do copos que deixaste cair ontem após mais uma discussão. Dormiste sobre o assunto, mas o rancor ainda está contigo, bem como todas as palavras que te massacram a cada minuto a cabeça pesada. Deste dois tragos no álcool áspero que guardas para ocasiões especiais como esta e saíste para arejar a cabeça e queimar os pulmões mais um bocado com dois cigarros fumados à velocidade da luz. Voltaste a casa, talvez cedo demais para a tua vontade ou para a tua disposição, mas tem que ser. Fugiste a correr para o quarto, na mesma calmaria de sempre ignorando o que se passa à tua volta, sejam moscas, cães ou gatos e, principalmente pessoas. Com a mesma velocidade de sempre despiste a roupa que te cobria e deitaste-te. A música começa a entrar-te nos ouvidos e, assim, adormeces mais uma vez, sobre o assunto. Não estás bem; nada te deixa satisfeito; queres mais e precisas de paciência, mas as pernas são te tolhidas por catanas. Acordaste do mesmo modo que foste dormir: revoltado, mal com tudo e perdido.
Acordas mal contigo mesmo não porque falhaste com os outros, mas porque falhaste contigo mesmo. Ontem devia ter sido o dia e não foi. Hoje tem de ser, mas talvez não será também. Falhas com o plano e a promessa que fizeste a ti próprio que irias matar-lhe a curiosidade, mas ainda não conseguiste.
Ela passa as noites ao teu lado, sussurra-te ao ouvido as vezes que já falhaste, as vezes que ela te limpou as gotas que trazias nas costas das mãos ou no pescoço. As vezes em que a tua roupa já foi queimada por vir com manchas que deviam ter ficado no sítio. Quantas vezes ela te disse de cabeça as noites que passaste fora de casa com alguém que não ela, as vezes que a trocaste pelos outros corpos. As vezes em que ela, após chegar a casa, te inspecciona o corpo à procura de falhas, de provas; à procura de tudo o que te possa levar para longe de casa.
Quantas vezes ela ficou e não foi embora e tu estragas sempre tudo.

- Está tudo bem?
- Sim, está tudo óptimo! E contigo?

Sorris, ouves a resposta e vais à tua vida.
Fodido; porque ainda não foi ontem que tu e ela mataram juntos.

quarta-feira, agosto 26

Conversas soltas I

- Já viste como seria mau se nos perdêssemos?
- Já viste que seria pior se nunca nos tivéssemos encontrado?

sexta-feira, julho 3

Era uma vez

Dizem que sonhamos demais; alto demais.
Dizem que o fazemos e que esse é o nosso erro. Se ao menos eles soubessem o que é errar.
Para quê tanta história quando (só) nós sabemos que esta nunca iria começar com o "Era uma vez" que toda a gente procura? Nós não somos pessoas de "Era uma vez"; não somos apologista de apenas um final feliz; somos apologistas de tudo, menos disso. Sei bem o que me disseste ao ouvido, na outra noite, debaixo do céu pontilhado de luzes e uma lua cheia: "Não somos tu e eu; Já não existe tu e eu. O crime está cometido". Admiro-te por isto. Afinal quando se comete um crime não deve haver testemunhas.
O "Era uma vez" nunca será para nós, o "Viveram felizes para sempre" muito menos, pois ambos sabemos que um já acabou e o "para sempre" é muito tempo para dois seres mortais. Hoje cometemos um crime, ninguém sabia; amanhã ou depois teremos outro e ninguém irá saber, estes são os nossos finais felizes;
Dizem que sonhamos alto demais, mas ambos sabemos que não é assim.
Afinal, temos os pés bem assentes numa terra chamada nós.