terça-feira, fevereiro 19

Apaziguar

Um arrepio curto percorre o teu corpo longo à medida que a lâmina fria encosta-se às tuas costas despidas. Não preciso de ver, mas sei que o medo dominou o teu rosto por breves segundos.
Desvio o cabelo e encosto os lábios ao teu ouvido lançando um suspiro cortante e espesso. Sussurro uma meia dúzia de palavras curtas e estridentes. Quando me encostei pude sentir o nojo riscar-te a face e, agora, quando falei, vi surpresa. O espanto que todos sentem quando lhes falo.
Limito-me apenas a responder à pergunta que todos fazem: “Porquê eu?”.
A minha resposta? Sempre a mesma, assim como todo o ritual que a procede.
“Hoje és tu, amanhã, ou depois, é outro. É tudo uma questão de divertimento onde o único objectivo é apaziguar o tédio.”
Calo-me. A ponta da faca encostada ao corpo, belo e singelo, perfura bruscamente o peito e, de um só vez, a lâmina enterra-se. Ele – o corpo – cai pesado e frio, esvaindo-se em sangue e vai dando um tom garrido à pele que perde a cor e ao chão velho sem verniz.
Vou deslizando, com as costas na parede fria, até ao chão. Espero, recolhido e com as mãos juntas aos joelhos, pousadas nas pernas, na frente do corpo, pelo suspiro definitivo para poder sentir aquele arrepio de prazer que me toca cada vez que um ânimo foge, desesperado, do cadáver. Vou-me embalando, balouçando para trás e para a frente os pés, levando, em todo o movimento, o corpo atrás. Com os olhos fixos nela sustenho a respiração, não falo, não ouso fazer qualquer outro movimento senão balouçar. Ela ainda se debate, mexe-se duas vezes. A boca tapada por um pedaço de cortina rasgado à força impede-a de gemer, berrar ou pedir auxílio. O olhar atormentado basta para eu saber que ela o faz, freneticamente e em desespero, mas de nada lhe serve. Os seus movimentos vão se petrificando. A respiração vai morrendo. Sinto-a encher o peito, vagarosamente, e disparar, uma última vez, todo o ar que lhe enchia os pulmões.
Parei de balouçar. Agarro o cabelo curto com as mãos, encosto-me, com as pernas estendidas, e suspiro, fortemente, para o ar.
Levanto-me e, ligeiramente e de uma só vez, arranco a lâmina do peito. Limpo-a com o lenço que trago no bolso e volto a colocá-la dentro do casaco, no pequeno bolso junto ao peito. Vou saindo, devagar, abandonando a minha última diversão.
-Até breve! – murmuro.
Fecho a porta atrás de mim.
 Dizendo um até já, curto,
 ao tédio, que desapareceu,
 mas que há-de, certamente, voltar…

1 comentário:

  1. o teu primeiro texto do blogue é um "Até Breve". É uma ironia bonita e uma certeza de que vieste para ficar.

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