terça-feira, fevereiro 19

Cartas

Voltei. Voltei de uma guerra para me vir embrulhar noutra.
Enquanto éramos novos gritamos um pelo outro por entre as linhas das cartas que escrevíamos. Na altura eu estava no mato, numa guerra que não comecei, numa daquelas províncias infernais para as quais ninguém queria ser destacado. Tu, de coração aos pulos, ias afogando saudades nos papéis das cartas violadas por outros antes de chegarem às tuas mãos.
Tu esperavas, angustiada, na remota aldeia. Esperavas ansiando a carta que anunciaria o meu regresso e, do mesmo modo, ansiavas, desesperada, que a carta que anunciaria a minha morte nunca chegasse.
Os anos passaram.
Hoje sou eu quem afoga saudades nas cartas que trocamos e remexo pensamentos sobre outras que ficaram por trocar – umas por falta de coragem, outras por falta de permissão e ainda outras que só Deus sabe porquê. Eu sobrevivi à guerra fútil dos homens, mas tu pereceste numa guerra desigual e muito pior que a dos homens.
Faz hoje cinco anos. Já não trocamos cartas amor.
Os olhos ainda agora, passados estes longos e dolorosos cinco anos, choram pela tua ausência. Os olhos estão já cansados, o corpo gasto e velho e com rugas, a alma gravemente ferida com os estilhaços que a tua morte lançou ao ar.
A tua guerra com aquela maldita doença foi injusta, mas, mesmo assim, ainda tiveste força e ripostaste, admiro-te essa força. Sou sincero agora que estou sozinho e ninguém me ouve, quem me dera, quem me dera ter metade da tua força neste momento porque, sabes, força e esperança é o que mais me falta e era o que, formidavelmente, tu conseguias, apesar de tudo, transbordar.
O copo está cheio, um pouco de água e uma mistela que me leva rápido. Eu já vou sim?
Espera por mim no último lance de escadas que eu estou a chegar amor.
Estúpido, tolo. Tento enganar-me, mas depois disto não me resta senão esperar que te encontre.
Talvez nos voltemos a ver.
Talvez voltemos a trocar carinhos.
Talvez voltemos a trocar cartas porque nós, meu amor, já não trocamos cartas.

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