terça-feira, março 5

Catraio

Deixava-se ficar por ali.
Deitado numa espécie de almofada que lhe abrangia todo o corpo e rodeado por seis pedaços de madeira envernizada. Era assim que estava agora. O corpo ainda era fresco mas iria despedaçar-se. A força perdera-a no mês passado. Adormecera, pela última vez, encostado ao tronco de um carvalho velho.
Trabalhava freneticamente e esse mesmo trabalho fulminara-lhe o coração. Sentiu-se imensamente cansado. Uma dores agudas afectaram-lhe o braço. Pousou a enxada. Sentou-se devagar debaixo da sombra onde guardava o farnel e o pequeno garrafão de tinto. Sentiu sede. Com algum esforço, encheu meia caneca e bebeu tudo de uma só vez. A bebida refrescara-lhe a garganta mas foi só isso, apenas refrescou. A sede continuava lá.
Respirava com bastante dificuldade. A força começara a esvair-se. Um único aperto no peito acabou com ele. A cabeça caía-lhe no peito enquanto os olhos se fechavam, cansados, com imensa lentidão e agonia. O silêncio inundou-lhe os lábios afogando-o, por fim, na morte.
Nas noites mais quentes apanha boleia do fogo e leva no bolso a rebeldia da juventude. Vai esticar as pernas. Visitar os semi-jardins que as jarras de flores de plástico, horríveis e sem cor, formam. A rebeldia salta-lhe do bolso e acorda a vizinhança. Uns berram, outros consentem a correria e, outros ainda, deixam-se estar deitados. Por ali se fica Augusto. Divertia-se, por vezes acompanhado dos dois corvos irmãos, por vezes só. A morte é solidão, ou não.
Não sentia falta de nada. Tinha tudo, podia tudo, outra vez. Setenta e quatro anos. Por vezes, nas noites de Primavera, voltava a ser espírito de catraio e pulava a cerca, subia aos castanheiros, fazia ninhos aos pássaros e exilava os cucos infiltrados. Por ali ficaria por bastante tempo e aproveitava a estadia.
Setenta e quatro anos.
Catraio.
O coração parou de bater mas ele ainda corre, alegre, na sua morte, atrás dos pássaros.
Até um dia.
Afinal, um dia será pó. Pó que irá ocupar o caixão castanho de bordos dourados. É assim a sua última morada, castanha, com bordos dourados.

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