segunda-feira, maio 13

Putos a roubar maçãs - I

Putos a roubar maçãs


A manhã era ainda breve e parecia vir discreta, sorrateira. O sol ainda não se mostrava com toda a força, mas já ia abrindo os olhos, primeiro, o direito, muito vagarosamente, depois o esquerdo, bem devagar. A brisa que corria fazia congelar a ponta do nariz, os dedos das mãos e, às crianças descalças, os pés sujos com a terra e consumidos pela fome.
Hoje, assim como todas as quartas-feiras de todas as semanas do ano, era dia de mercado na Rua 40. As mulheres abriam as janelas e expunham, nos beirais, os seus vasos de orquídeas, um ou outro girassol de estimação e malmequeres, muitos e muitos malmequeres. Os homens, em baixo, nas ruas, abriam as lojas, tiravam bancadas fazendo-as passar pelas portas estreitas, mostravam o peixe acabado de dar à costa nas traineiras, fruta de cor verde, vermelha, amarela ou alaranjada saltavam para as bancadas e organizavam pirâmides perfeitas. Não eram flores, é certo, mas o festival de cores que as frutas proporcionavam era igualmente admirável. Os aromas espalhavam-se e misturavam-se à medida que a brisa, agora mais quente, os empurrava para infinitas colisões.
Com o avançar da manhã, as pessoas iam-se juntando ao longo da rua para fazerem as suas compras. Por uma ou outra vez, encostavam-se, desocupando o centro da viela, para os pescadores passarem com novo carregamento de peixe vindo das águas do mar. Era sempre da mesma maneira. Enquanto um pescador conduzia, outro, fisicamente mais robusto, vinha atrás, junto do peixe, facilitando a sua descarga, poupando tempo. Este último, o homem das descargas, aparentava ser já homem batido do mar. A sua pele estava queimada do sol e da brisa salgada; as mãos, ásperas, tinham alguns cortes por causa dos puxões nas redes de pesca; o cabelo, preto como o carvão, estava desmazelado, bastante despenteado; a roupa que ele trazia, umas calças de ganga (com alguns remendos) e a camisa branco sujo tinham manchas de sangue, provavelmente de algum peixe ou de limpar as mãos feridas à roupa; no rosto, notava-se bem o cansaço da noite de trabalho, as rugas e a barba grande.
Quase no fim da rua, depois de terem deixado o peixe, um dos homens, o que conduzia, segurava o volante com apenas uma mão enquanto, com a outra, ia explorando o bolso das calças. Depois de ter esticado a perna, contorcido umas três vezes, decidiu levantar-se e lá tirou, com algum esforço, o maço de tabaco. Era o último cigarro. Tirou-o, balançando o maço em frente à boca, assim que ele se aproximou segurou-o, fortemente, com os lábios secos e cortados. Fechou a mão direita com força, amarrotando o maço vazio e atirou-o para junto de uns quantos sacos do lixo que estavam numa das esquinas das muitas ruelas que davam acesso à Rua 40. Olhou em frente, orientando-se, meteu depois a mão num pequeno compartimento junto ao volante à procura do isqueiro. Não o encontrava. Respirou fundo e, em seguida, vasculhou bruscamente o fundo do compartimento e, por fim, lá o encontrou o isqueiro. Acendeu o cigarro e atirou o isqueiro, novamente para o fundo da toca.
Cá trás, depois do peixe ter passado, a confusão instalou-se junto a uma banca de fruta. Alguém gritava, com toda a força,
-Apanhem-no! Apanhem-no! Vagabundo! Ladrão!

Ao que parece, era um homem quem gritava. Um miúdo, da rua, tinha-lhe roubado, da banca, uma maçã. Todos os que ali estavam trocavam olhares, ninguém se esforçava para apanhar o pequeno vagabundo, a passividade transmitia-se pelo olhar e ia atingindo todos, um de cada vez.As mulheres, ao ouvirem gritos, correm para as suas sacadas acudindo de lá o desespero do comerciante. Deu um lado ao outro da rua, de varanda em varanda, aos saltos, ia-se ouvindo um “Vai ali!”, um “Ali está ele!” seguido de um dedo a apontar a direcção, mas, já mais para o meio da rua, os clamores de localização iam perdendo força até que alguém, retido e infeliz, lá disse “Oh! Fugiu! Oh…”.
E, de facto, tinha fugido. Com todo aquele alvoroço o pequeno acabou por fugir, de cabeça baixa, furando por entre a multidão.

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