quarta-feira, maio 15

Putos a roubar maçãs - II


Já mais à frente, perto da esquina de uma viela que se encontrava com a Rua 40, onde morria um maço amarrotado, o moço virou repentinamente. Um caixote enorme e verde do lixo, cheio, servia de esconderijo a alguém que tremia de frio e agoniava com a fome.
-Cheguei! Cheguei!
 Ainda no começo da rua o ladrão dava sinal da sua chegada ao pequeno rapaz que estava atrás do caixote. Devagar, cansado de tanta correria e ziguezagues por entre a multidão, caminhava em direcção ao outro rapaz. Encostou uma mão à parede, pegou num saco do lixo que por ali estava e desviou-o para se poder sentar junto da outra criança. Respirou fundo uma, duas, três vezes, para recuperar o fôlego. Meteu a mão ao bolso do casaco e tirou de lá a maçã que tinha roubado, uma maçã vermelha, cheirosa.
-Toma, Afonso, é para ti!
Afonso levantava a cara suja em direcção ao seu irmão, Tomás. Sorriu. Pegou velozmente na maçã e começou a roê-la com todas as suas forças. Tomás encostou-se e sorriu enquanto acariciava os caracóis do irmão.
Missão cumprida, pensara.
Aquela maçã, para Afonso, seria a única porção de comida para o todo o dia ou, quem sabe, com alguma sorte, para aquela manhã gelada.
Tomás, o mais velho, comia carcaças de pão duro que comprara na segunda-feira com o dinheiro que havia juntado durante o dia. Ele comia sempre o pior ou menos caso tal coisa implicasse que o seu irmão comesse muito e bem. Tomás sabia que aquela vida era dura, hoje poderiam arranjar dinheiro para toda a semana, mas também teria que roubar alguém amanhã para se alimentar.
Aos domingos, Tomás levava Afonso pela mão e sentavam-se em frente à escadaria da igreja. Era dia de missa e, na esperança que os fiéis lhe dessem de comer, acampavam por ali. Eram os dias em que menos recebiam, iam tendo dinheiro para comprar umas pequenas carcaças de pão, mas nada mais que isso. Eram dias em que a fome apertava seriamente.
Tomás ainda se lembrava, vagamente, de entrar naquele sítio com os pais e os avós. Lembra-se de algumas coisas que por lá se diziam. Tomás sentia-se ferido ao ver toda aquela gente passar e nada lhe darem, nem mesmo falarem. Por vezes, quando o frio, a fome e a indiferença lhe enchiam o seu interior ele, Tomás, desatava a pregar aos fiéis.
-Fiéis? Que fiéis são estes que apenas vêm em romaria e tudo se resume a isso? Não ouvem ou aprendem nada. Sóis só mais um bando de hipócritas. Vêm aqui porque sim. Onde está o que vos tentam ensinar? Onde está o “dar de comer a quem tem fome”? Ou o “dar de beber a quem tem sede”? – cerrava os punhos e gritava- Fiéis… Não sei como! Não de quê!
Quando esta algazarra se formava um ou outro, dos que passavam, iam deixando algumas moedas no gorro gasto que Afonso segurava. Aquele discurso parecia que lhes tocava na consciência e a fazia pesar, mas, mesmo assim, eram poucos. Nestes dias de missa, o padre lá os acolhia e lhes dava comida ou roupa nova. Tomás era praticamente da altura do padre. Encostavam-se um ao outro para verem Afonso comer junto ao aquecedor de óleo que havia na igreja.
Tomás batia nas costas do padre dizendo-lhe:
-A sua alma é grande, devia haver mais gente assim. 
Mesmo assim, Tomás, achava que o padre se daria melhor como pai que na sua actual profissão. Todos os que tinham acolhido Afonso e Tomás até agora haviam-no feito pelo dinheiro. Quando o dinheiro não vinha lá iam os irmãos novamente para as ruas. Tomás achava que se o padre tivesse filhos não se importaria com o dinheiro, contando que os seus filhos estivessem felizes.

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