terça-feira, dezembro 31

A nós

Estava a ficar na hora.
Assim como todos os anos depois de eles terem desaparecido, estava sozinho em casa. A televisão apenas estava ligada, fazendo parecer com que a casa fosse habitada por muita gente. O computador, ao lado, exibia, em grande plano preenchendo todo o seu visor, um relógio de números enormes. Ele contava os segundos que faltavam para repetir o ritual.
Faltava pouco, dizia o relógio.
Ele levantou-se, encaminhando-se para a garrafeira de casa. Pelo caminho pegou dois copos, os mesmos do ano passado, do ano antes desse e do outro antes. Abriu a porta de vidro e tirou a garrafa meia de whisky e voltou à sala.
Um minuto, despacha-te! – gritou o relógio gigante do computador.
Ele abriu a porta com enorme rapidez e subiu as escadas, duas a duas, encostando a garrafa ao peito e segurando os copos com uma mão. Abriu a última porta que se opunha no caminho e sentiu logo o ar frio e, já um pouco de desejos renovados, a bater-lhe na cara cansada. 
Sentou-se à beira do terraço, no mesmo sítio de sempre, no banco de jardim verde-escuro, ao lado do pequeno bonsai que tinha saído à rua horas antes. 
Tirou a rolha da garrafa e fez o álcool cair até meio dos copos. Cá baixo, na rua, já se entoava a contagem decrescente para o novo ano.
O copo meio levantava-se em direcção ao céu negro repleto de estrelas.
Repetia a mesma oração de todos os anos, assim que todos começavam a festejar o novo ano:
-A nós, querida, que já não somos!
E, de um trago só, o whisky corria-lhe garganta a baixo acabando assim o ritual da entrada no novo ano e brindando sozinho esperando que os desejos escondidos e que as vontades pérfidas da alma se realizem desta vez.


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