terça-feira, março 25

Caleidoscópio - 3

Dedilhava o corpo gelado vezes e vezes sem conta. 
Por mais vezes que repetisse tais movimentos continuava angustiado e com saudade; saudade de tocar aquele corpo, aquela pele arrepiada e a ferver quando se perdiam por entre espaços de tentação.
Ainda hoje tudo lhe parece difuso. O fim que conhece tem inúmeros meios e alternativas, lembra-lhe o caleidoscópio por onde ambos olharam e juraram amar-se terrivelmente por entre pecados e tentações. 
Num dia normal, como tantos outros que passam sem que nos marquem a memória, o caleidoscópio quebrou-se em mil pedaços. Espalharam-se em volta dos seus corpos e entranharam-se na pele dos que julgavam o seu amor inquebrável. Marcou-os, tornando aquele dia uma frecha entre o passado e o presente. O frio não mais os abandonou; O gelo tomou-lhes de assalto o coração. 
Lado a lado, numa última tentativa, entrelaçaram as mãos em movimentos memorizados, ainda que o calor já não lhes habitasse as pontas dos dedos. Conheciam os pormenores mais íntimos, fingindo arrepios de paixão sorrateiros. Fingiam um amor que se estilhaçara, longe da vista de todos.
Desistem. Desenlaçam as mãos e libertam as memorizações corporais. Não há amor que se possa fingir. Não há palavras que apaguem a memória de um dia normal que no final lhes gelou os sentimentos. Aquilo que viam, por entre sorrisos, no antigo caleidoscópio tornou-se inacessível aos seus olhos.
A vontade de dedilhar o corpo gelado morreu. 

Ricardo Cunha e Cláudia S. Reis

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