terça-feira, março 11

Distorcidos

-Teremos o que é preciso?
-Talvez não, mas isso importa?

E começava assim a história assombrosa de ambos. Ela conhecedora da decisão que tomava, ele embriagado pelo sentimento que nutria. Mas, apesar de tudo, ambos sabiam que seria um tiro no escuro, ou, um valente salto para um poço sem fundo.
Conheciam-se, pensavam.
Amavam-se; talvez, em dias mais tórridos.
E foram todas estas imagens reflectidas em espelhos diferentes – mas igualmente frágeis – que tramaram tudo.

Ela pensava conhecê-lo, mas enganava-se. Dele quase nada sabia. O nome era real, bem como o seu corpo mas, tudo o resto nele, seja passado ou futuro não eram o presente que ela queria ter. Idealizou alguém que existia apenas no fundo negro de um abismo escarpado e que estava preso há muito.

Com ele as coisas foram simples. A embriaguez passou-lhe; veio a ressaca. Quando deu por si estava sóbrio outra vez, sóbrio e sem sentimentos. Já não a amava.

Para ele foi fácil, bastou trocar de bebida; para ela a história foi um pouco diferente. Ela também trocou a bebida, para coisas mais pesadas, juntou-lhe drogas e, no fim do dia, juntou-lhe o valente salto para um poço sem fundo onde apenas a corda que tinha ao pescoço a salvara de cair para a vida.

-Teremos o que é preciso?
-Talvez não, mas isso importa?

Realmente não importava, para ele.
Os dias passavam e ele voltava a estar embriagado.

Porém, os dias passavam e ela não voltava a estar viva.



Da rubrica «Em Terra de Amores e Matadores», no blogue Reinventei-me com palavras

2 comentários:

  1. Chorei ao ler isto. "Para ele foi fácil, bastou trocar de bebida; para ela a história foi um pouco diferente. Ela também trocou a bebida, para coisas mais pesadas, juntou-lhe drogas e, no fim do dia, juntou-lhe o valente salto para um poço sem fundo onde apenas a corda que tinha ao pescoço a salvara de cair para a vida." autch.

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    Respostas
    1. Não sei se isso será bom ou mau...
      Talvez mau porque choraste, talvez bom porque consegui pôr-te a chorar com o que escrevi...

      Mas, sobre o que ali está, é muito do que se passa, no escuro, no silêncio.

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