quinta-feira, março 20

Fugas

O dia passava vagarosamente nos dois relógios.
Os minutos pareciam arrastar-se moribundo durante o dia e fazer com que o passar das horas se tornasse um enorme desespero. Por outro lado, esse desespero e esse tempo quase infinito serviam de oportunidade para ambos, em lados quase opostos da cidade, se deliciarem a imaginar nas peripécias para mais um encontro. É certo que seria difícil pensarem igual, ou pelo menos a mesma coisa da exacta maneira que o outro pensava, pois um preferia lençóis brancos de seda confortáveis e outro o azulejo frio do chão.
Hoje os desejos eram diferentes, bem como as intenções.
Os encontros eram pontuais e era já hábito. Já se encontravam desta maneira – despidos – há dois anos. E, nada mais queriam. Era isto; só e apenas isto.
Hoje ele traria o vinho tinto e o blazer cinzento que ela tanto gostava e ela, por sua vez, iria deliciar-lhe as vistas com a lingerie preta renda que lhe caía, palavras dele, optimamente na pele morena onde ele se afogava em prazeres.

A noite finalmente já tinha caído.
Ambos prontos, dirigiam-se ao local onde sempre se encontraram, desde a primeira vez até hoje.
Como sempre, ela entrava primeiro, ele a seguir deixando-se levar pelo perfume.
Na pequena mesa do quarto moravam dois copos destinados a perderem em lábios com desejos latentes.
Era tudo ritual; hábito.
O abrir do vinho, o beber. O não falar do dia ou da vida. Os sussurros ao ouvido que geravam gargalhadas. Os beijos frenéticos de anseio. O caos da roupa no chão.

Era tudo óptimo para eles.
Conheceram-se no escuro daquele quarto e, mesmo assim, perdiam-se, um no outro.
Era tudo óptimo mas não passava de sexo.

Afinal, diziam conhecer o corpo um do outro, mas nunca perguntaram por cicatrizes.

Da rubrica «Em Terra de Amores e Matadores», no blogue  Reinventei-me com palavras

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