segunda-feira, abril 14

Ecos

Ecos vazios prolongavam-se ao som do vento dentro da casa morta. Os móveis, sobrecarregados de pó, estavam fechados à chave, guardando segredos e sussurros de quem ali pernoitou durante anos. Apesar do pé leve a madeira velha do chão gemia a cada passo.
Ao raspar a parede com as unhas e vê-se pequenas partículas da tinta morta caírem e serem levadas pela brisa que entrava na janela do fundo, com os vidros partidos, e percorria a casa de um lado ao outro. Entrando na segunda porta que existe no corredor encontra-se um quarto grande: cama de casal, pequena estante com livros - agasalhados pela poeira - e um quadro em cima da cama tapado com um pedaço rasgado de um lençol branco.
Afastei o quadro, sem tirar o lençol e, ao sentar-me ao lado dele, um arrepio percorre-me as costas. Começava a ouvir pequenos murmúrios vindos do quarto ao lado, gemido de quem dorme. Aqui, neste quarto vago, percorrem-me os ouvidos gritos leigos de quem pede um beijo durante o escuro da noite. A minha pele fica fria, sinto um leve toque na cara, uma carícia de aconchego de quem nunca o teve, mas que sempre se preocupou em aconchegar os outros, seja no quarto ao lado, quando os pequenos se deitavam e ela, calada, puxava os cobertores e lhes beijava a testa, ou então, quando algum dos filhos, que não os seus, chegavam tristes da rua – seja porque os impediram de brincar durante os exímios cinco minutos de recreio, seja porque o pai os obrigara a trabalhar, batendo-lhes – ela, bem ou mal, ferida ou não, doente ou sã, estava sempre lá.
O corpo alegre que vivia dentro das paredes da casa desmoronou-se à medida que o tempo avançava. Ela era tratada como uma escrava, servia de tudo e para tudo. Os móveis escondiam segredos de uma alma partida por alguém que nunca teve tal coisa.


Toda a gente tem limites e ela encontrou, para seu bem, o dela.
O homem, morto à facada por ela, morreu aqui, onde estou sentado, durante o sono. Os filhos não estavam por cá nessa noite, estavam na quinta dos tios. Nem os urros dele, nem o choro livre dela se ouviam. As ruas sempre foram desertas, principalmente à noite – e quem se atrevia ou morria em troca de umas quantas moedas ou vivia esticando o punhal em direcção aos que passavam com o propósito de ganhar uns trocos.

A noite acabou com a faca no coração dele. 

Hoje, quem aqui passa e sabe da história pode ouvir o choro, pode sentir a carícia, pode sentir o abraço daquela que ganhou coragem e cometeu um crime, um crime que acabou com a escravatura que a arrasava.

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