segunda-feira, maio 12

História, sem história

Nenhum deles estava preparado para o que iria acontecer.
Há dias e eventos quase fatídicos e, há quem diga que, aquele, era um desses.

Frank e Carla. Casados desde os seus 23 anos. Naquele dia tinham ambos 45. Namoravam desde os 18. Para alguns era muito tempo juntos; para outros era pouco tempo; para eles era tempo. Nem muito, nem pouco; era a vida deles, o tempo deles e que só a eles lhes dizia respeito. Era assim que pensavam, era assim que tentavam ser felizes.
Para eles não havia duas vidas ou, pelo menos, tentavam conciliarão máximo as suas incompatibilidades de modo a construírem uma vida única, uma vida de e para ambos. Mas, assim como toda a felicidade e vida, um dia chegam ambas ao fim. E, a deles, juntos, tinha conhecido o seu fim.

Há coisas que não se podem prever e, certamente, a morte de Frank era uma dessas coisas. Na sexta-feira, quando voltava – como sempre fazia -, a pé, do trabalho, Frank foi assaltado.
Aquele trajecto era o mesmo de todos os dias, o mesmo de outras pessoas. Nunca ninguém tinha sido assaltado por ali, muito menos morto.
Frank tentou resistir, apesar das várias ameaças de faca em punho. Como outra pessoa qualquer, tentou uma escapatória, mas sem sucesso. O ladrão esfaqueou-o várias vezes e fugiu, levando-lhe a carteira e deixando Frank para trás a morrer no passeio.
Passado algum tempo uma mulher encontrou-o estendido e mergulhado em sangue. Ainda pediu ajuda, mas seria tarde demais já. Frank acabou por morrer antes que a ambulância chegasse em seu auxílio.

Depois disto pouco ou nada há a dizer.
Depois disto não há história, assim o decidiu Carla.
Mergulhou nas suas palavras e repetiu-as vezes sem conta junto ao caixão frio.
- A minha história acaba aqui, assim, com o fim da tua vida, amor.

Calou-se apenas por uns instantes, metendo um papel velho no bolso da camisa do marido. Aquele papel resumia, para eles, tudo o que eram, tudo o que foram e tudo o que nunca poderiam ser.
No papel apenas tinha escrito uma frase:

“Being close to craziness is being close to you.”


Esta fora a despedida de uma mulher destroçada e a maneira mais sincera de criar uma ode à saudade que a partida iria gerar.

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