quarta-feira, maio 14

Silêncio

Um quarto escuro.
Para ele, um cenário assim era praticamente o seu habitat natural. Preferia zonas de crepúsculo onde sabia que podia esperar por acontecimentos não muito distantes que lhe retirariam o tédio.
Para ela, um quarto destes era ainda uma selva densa, território por explorar. Não tivera nada disto antes, nem a escuridão do quarto, nem a escuridão da pessoa. Nela e nos seus olhos claros havia de tudo – pequenos mundos repartidos por entre o azul imenso, sonhos de caridade afincada e uma simplicidade que aprisionava pessoas; havia tudo isto, menos tédio.

A cama era preenchida por corpos díspares que se tentavam unir.
A cabeça dela assentava no peito dele. A noite tinha sido longa para ambos, não tão longa quanto ele estaria habituado nas suas jornadas de sangue, mas um longo diferente, simples e necessário.
Ela adormecia com sonhos límpidos e frágeis.
Ele não dormia. As insónias eram um terror necessário, só mais um no meio dos muitos que lhe enchiam o pensamento. Porém nem sempre eram terror, como hoje por exemplo. O terror de não conseguir dormir, tornava-se do presente de a poder observar, de conseguir sentir a sua respiração, de lhe dedilhar o cabelo entrelaçando-o nos dedos ou de a beijar de leve para não a acordar.
O que ali estava era tudo o que ela queria, mas a ela não enchia as medidas. Não havendo segredos entre ambos, ela sabia dos horrores que se passam dentro dele e nas noites em que ele não aparecia. Considerava-o um mal necessário. Compreendia-o e isso, juntamente com a simplicidade que transbordada, o seu corpo e os seus olhos, chegavam para o prender.
Hoje a noite era só deles e ambos sabiam.
Ela não dormia sozinha.
Ele não acrescentava mais um corpo aos tantos que já faleceram nas suas mãos.
As noites eram longas. E, por entre elas, apenas quando ela dormia é que se ouvia uma voz forte a sussurrar:

- Amo-te. Não como essas pessoas que andam de dia e de noite e falam da boca para fora. Amo-te de verdade, como um louco, amo-te, como só os loucos sabem amar.

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